É impossível falar de racismo sem causar polêmica, desconforto, discussões e etc. O racismo nada mais é do que uma implementação radical da normalidade. Só existe um “outro” que pode ser excluído porque existe uma normalidade intolerante que o define fora dela.

O racismo brasileiro é pior que o americano justamente por ser  hegemônico, portanto, invisível. Nos EUA, o discurso da racismo era escancarado e o seu contra-discurso também. No Brasil atualmente o racismo é tão hegemônico e naturalizado que ele nem precisa de um discurso racista para se manter. Na verdade, ele se mantém melhor por não ter esse discurso. A falta do discurso racista torna as práticas racistas invisíveis (mas não menos opressivas) e tiram a legitimidade de qualquer contra-discurso: “Do que você está reclamando, meu filho? Pare de criar caso… O Brasil não é racista, nunca tivemos leis segregacionais, VOCÊ é que está sendo racista de falar nisso…”

Vamos lá:

- Meu Deus, que negão lindo!!!!

Daqui a pouco, de novo:

– Olha o charme desse negão, ele tá dominando a pista.

Eu não digo nada, mas abro os ouvidos. Ela também também olha o outro homem (Branco) ao lado e diz:

– Caramba, olha quele cara, ele é lindo também, que coroa hein. O que o tempo faz com as pessoas, meu deus?

Depois de eu escutar essas duas falas desnecessárias, pois eu podia dormir sem escutar aquilo daquela colega. Quase todas suas referências (sempre elogiosas) ao Homem Negro destacavam sua raça – não chamando-o de “negro” (claro que não, aí pega mal) mas de “negão”, uma palavra que, dependendo do tom, virou apelido carinhoso.

Já em suas referências elogiosas ao “Cara” ou “Coroa” como ela mesmo o tratou, ele nunca foi chamado de “branco“, “brancão” ou mesmo “capixaba” ou “clarinho“. Não: Ele é o “coroa”, “cara”, “homem” e etc.

Assim como podemos extrapolar a existência do mar a partir de uma gota d’água, também podemos deduzir toda a desigualdade racial do Brasil só de ouvir atentamente uma típica brasileira falando sozinha durante um documentário.

“Sou racista por me referir a alguem como negão?”

Se fosse interpelada, minha amiga ficaria imediatamente na defensiva:

– Pô, Le, falei de uma forma carinhos, elogiosa.

E eu responderia:

– Claro que não. Não chamo ninguém de racista. Isso não faz nenhuma diferença. Eu também falo assim. Quase todo mundo fala assim. A questão é que tipo de sociedade faz com que seus membros falem assim.

– Mas qual é o problema? Não posso chamar meu amigo de negão. Mas posso chamar outros amigos de gordinho, baixinho, bigode, viadinho e etc.

Danilo Gentili já tinha dito uma vez em seu Twitter:  ”Alguém pode me dar uma explicação razoável por que posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa, mas nunca um negro de macaco?”.

Ele ainda completa: “Se você me disser que é da raça negra, preciso dizer que você também é racista, pois, assim como os criadores de cachorros, acredita que somos separados por raças. E se acredita nisso vai ter que confessar que uma raça é melhor ou pior que a outra, pois, se todas as raças são iguais, então a divisão por raça é estúpida e desnecessária. Pra que perder tempo separando algo se no fundo dá tudo no mesmo?” (Não concordo com tudo, mas achei muito coerente o que disse.)

Quem propagou a ideia que “negro” é uma raça foram os escravagistas. Eles usaram isso como desculpa para vender os negros como escravos: “Podemos tratá-los como animais, afinal eles são de uma outra raça que não é a nossa. Eles são da raça negra”.
Então quando vejo um cara dizendo que tem orgulho de ser da raça negra, eu juro que nem me passa pela cabeça chamá-lo de macaco, ou algo do tipo, mas quando o vejo usando uma camisa 100% negro, me da vontade de chama-lo de burro.

Falando em burro, cresci ouvindo que eu sou uma magricela branquelo e parecia uma largatixa. E também cresci chamando um dos meus melhores amigos de elefante, e outro de 4 olhos (não sou a favor de bulling, mas devemos tomar muito cuidado com esse outro modismo e conceito conturbado e viciado que estão usando para esse tema, mas isso é tema para outro post.)  Já ouvi muita gente chamar loira caucasiana de burra, gay de viadinho e ruivo de salsicha, e numa pesquisa mundial recente, foi constatado que o preconceito contra os obesos é muito mais violento e desumano que outras formas de preconceito.

O que irei dizer aqui é pesado, e com certeza muito irão me criticar, mas tenho muitos amigos negros e posso falar com muita segurança, sem me preocupar que irei ofende-los. Mas se alguém chama um preto de macaco é crucificado. E isso pra mim não faz sentido. Quem mede o tamanho da ofensa ou possa me falar da diferença desse comentário racista com o chamar uma pessoa obesa de baleia, e etc.
- O macaco é o pior de todos. Quando um humano se xinga de burro ou elefante dão risada. Mas quando xingam de macaco vão presos. Ser macaco é uma coisa terrível. Graças a Deus não somos macacos.

Prefiro ser chamado de macaco a ser chamado de Largatixa, já que sou branquelo. Peça a um cientista que faça um teste de Q.I. com uma largatixa e com um macaco. Veja quem tira a maior nota.

Quando queremos muito ofender e atacar alguém, por motivos desconhecidos, não xingamos diretamente a pessoa, e sim a mãe dela. Posso afirmar aqui então que Darwin foi o maior racista da história por dizer que eu vim do macaco?

Mas o que quero de verdade com todos esses comentários pesados, agressivos até, é provocar você leitor a ser mais crítico, menos hipócrita e mais realista. Não sei qual o problema em chamar um preto de preto. Esse é o nome de uma cor. Eu sou um ser humano da cor branca. O japonês da cor amarela. O índio da cor vermelha. O africano da cor preta. Se querem igualdade deveriam assumir o termo “preto” pois esse é o nome da cor. Não fica destoante isso: “Branco, Amarelo, Vermelho, Negro”?.  Mas se gostam tanto assim do termo negro, ok, eu uso, não vejo problemas. No fim das contas, é só uma palavra. E embora o dicionário seja um dos livros mais vendidos do mundo, penso que palavras não definem muitas coisas e sim atitudes.

Digo isso porque a patrulha do politicamente correto é tão imbecil e superficial que tenho absoluta certeza que serei censurado se um dia escutarem eu dizer: “E aí seu PRETO, senta aqui e toma uma comigo!”. Porém, se eu usar o tom correto e a postura certa ao dizer “Desculpe meu querido, mas já que é um afro-descendente, é melhor evitar sentar aqui. Mas eu arrumo uma outra mesa muito mais bonita pra você!” Sei que receberei elogios dessas mesmas pessoas; afinal eu usei os termos politicamente corretos e não a palavra “preto” ou “macaco”, que são palavras tão horríveis.

Os politicamente corretos acham que são como o Superman, o cara dotado de dons superiores, que vai defender os fracos, oprimidos e impotentes. E acredite: isso é racismo, pois transmite a ideia de superioridade que essas pessoas sentem de si em relação aos seus “defendidos” .

Se você acha que vai impor respeito me obrigando a usar o termo “negro” ou “afro-descendente” , tudo bem, eu posso fazer isso só pra agradar. Na minha cabeça, você será apenas preto e eu, branco, da mesma raça – a raça humana.  Se quer usar uma camisa onde transmita que vc não é racista, use uma com os seguintes dizeres: “100% humano”. Com certeza seria muito mais humano e gentil da sua parte.

Mas é simples: enquanto nós, os brasileiros de todas as cores, na nossa fala cotidiana, sentirmos a necessidade de marcar, enfatizar, mencionar a raça do indivíduo negro, ao mesmo tempo em que NÃO sentimos a necessidade de marcar, enfatizar, mencionar a raça do indivíduo branco, então o branco continuará a ser sempre a norma, o normativo, o normal, a ideia paradigmática do brasileiro.

Sobre ziotto

Jovem administrador de empresas, pós-graduado em Gestao Empresarial, bom filho, amigo leal, otimista(mesmo no meio dessa crise), bem humarado, insatisfeito crônico e sonhador, bom, sou td isso e uma pouco mais...srsrsr

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